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Dicas de Viagem

postado dia 11/12/2015

Pedalando pela Provence

* Por Roberto Peixoto

Há 6 anos fiz minha primeira viagem de bicicleta. O estalo me deu em uma viagem à Budapeste em 2007, quando depois de alguns dias andando muito pela cidade, me deparei com um grupo fazendo turismo pela cidade de bicicleta. Uma pena só ter visto isso no meu último dia lá. Fiquei imaginando a agilidade e rapidez deles
circulando pela cidade de bicicleta. O que eu tinha levado 4 dias para conhecer, levaria facilmente 2 de bicicleta, ainda mais acompanhado de um guia local. 

Conhecendo budapeste de bicicleta

Alguns dias depois, na mesma viagem, consegui alugar uma bicicleta em Viena, num desses sistemas de bicicleta pública compartilhada, similar ao Vèlib que estava estreando em Paris naquele ano. Por algumas horas naquele dia, pude sentir o gostinho de liberdade e praticidade que era se locomover pela cidade daquela maneira.

No ano seguinte aluguei novamente uma bicicleta para circular pela cidade de Victoria, na costa oeste do Canadá. A partir daí, não consegui mais tirar da cabeça a idéia de fazer uma viagem toda de bicicleta. Assim que voltei comecei a pesquisar sobre o assunto, com o objetivo de fazer uma viagem de bicicleta pela Europa.

Fiquei impressionado com a quantidade de empresas que ofereciam esse tipo de viagem, porém perdi um pouco o entusiasmo, pois achei todas muito caras. Um tour básico de uma semana, com algumas empresas americanas e canadenses mais conhecidas, não saía por menos de US$ 4.000, sem contar o gasto com passagens de avião e trem. E o que agravava mais era o fato de eu estar viajando sozinho, o que acarretaria um gasto extra com “suplemento single” para poder ficar em um quarto sozinho. Uma delas, que é considerada “top” no mercado de viagens desse tipo, chegava a cobrar uns US$ 7.000 por apenas 5 dias de pedal pela França. 

Como a minha viagem seria pela Europa, passei a pesquisar empresas por lá. Nesse momento minha esperança voltou. As empresas inglesas tinham preços bem melhores, e em alguns casos custavam quase a metade. Sem falar nos suplementos single que eram valores bem mais coerentes. Depois de ler alguns artigos em jornais ingleses sobre essas empresas, acabei ficando entre duas. Nesse ponto já tinha definido que iria para a região da Provença na França, e o que me fez escolher por uma dessas empresas foi o roteiro, que no caso de somente uma delas, passava por Gordes e Pont du Gard.  

O roteiro iniciaria e terminaria num sábado, e incluía 7 noites de hotel com café da manhã e 6 dias pedalando. Além da bike e do guia inglês, também estavam incluídos todos os jantares, o transporte das malas de uma hotel para o outro e o transfer de chegada e saída. Para pagar na hora, só o almoço, que normalmente é um lanche ou um picnic, e a bebida do jantar. 

No início de 2009 me inscrevi para um tour pela Provença em Junho. A partir dali, comecei a me preparar para a viagem. Como eu já tinha um certo preparo físico em função da corrida, minha preocupação maior era com o fato de ficar o dia todo sobre uma bicicleta. Ou seja, com o selim e com as minhas costas. Assim comecei a pedalar com mais frequência para ir me acostumando. 

Nos meses que antecederam a viagem, providenciei as passagens de avião para Paris e as de trem entre Paris e Avignon, ponto de partida e chegada do tour pela Provença. Além disso, reservei algumas noites de hotel em Paris: uma noite antes do tour e outras 3 para depois. O que eu não contava era com um entorse de tornozelo uma semana antes do embarque, e com tudo na mão e um tornozelo enfaixado, embarquei rumo à Paris. 

Com o tour iniciando no sábado, eu tinha decidido chegar em Paris na sexta-feira para dar uma folga no caso de algum atraso em aeroporto e também para me recuperar do jetlag (5 horas de fuso horário durante o verão europeu). 

No sábado, depois de quase 3 horas num trem, cheguei em Avignon onde o nosso guia Pete McGee estava nos esperando na estação. Nosso grupo era formado por 6 pessoas - o inglês Richard, um casal de Irlandeses - Bronagh e Alan, Felicity da Australia, o guia Pete, que também era inglês, e eu. Com o grupo razoavelmente pequeno, o primeiro jantar serviu para nos conhecermos e Pete deu uma noção do que esperar durante a semana. 

O hotel em Avignon - Lea Cèdres - ficava na verdade em Villeneuve-lès-Avignon, a parte nova da cidade, num antigo casarão do século XVIII. Tive a sorte de ficar num dos quartos do casarão (alguns quartos são em bangalôs mais recentes), cujo o quarto ficava no último andar, com belos detalhes arquitetônicos aparentes como vigas e paredes de pedras. 


Pete regulando a bike de Bronagh sob a fiscalização de Alan

No domingo pela manhã após o café, Pete separou e regulou a bike de cada um. Junto com ela, recebemos uma bolsa para nossos pertences do dia para prender no bagageiro, capa de chuva e um jogo de mapas. Capacetes também foram disponibilizados para quem quisesse, apesar de seu uso não ser obrigatório, porém recomendado. Como não existe um carro de apoio nos acompanhando durante o dia, nos foi distribuído também algumas câmaras de pneus e bombas para encher. Na sua bike, Pete levava 2 bolsas repletas de ferramentas e tudo mais que podíamos precisar no caso de alguma pequena emergência. As malas seriam levadas para o próximo hotel por uma van contratada somente para isso.  

Aí é que começa-se a entender o motivo da diferença no preço dos concorrentes. Um carro de apoio com motorista a nossa disposição durante o dia inteiro tem um custo elevado. E com o tempo você conclui que é uma coisa totalmente dispensável. O guia tem vários contatos a serem acionados no caso de alguma emergência maior. 

Antes de sairmos, Pete abriu o mapa e mostrou a rota que iríamos fazer no dia, e falou um pouco do que íamos ver pelo caminho. Essa rotina se repetiu todos os dias durante a semana.

O primeiro dia de pedal foi bem leve, ideal para nos acostumarmos. No almoço paramos em Châteauneuf-du-Pape onde após um passeio pelo vilarejo, almoçamos num pequeno restaurante. Na sequência seguimos até o Château Mont- Redon para a degustação de vinho que nos aguardava. 

Vista do castelo de Châteauneuf-du-Pape

De lá rumamos para Orange, nosso destino final do dia, onde chegamos por volta das 5 da tarde. Tempo suficiente para um banho e uma volta pela cidade antes do jantar, sempre marcado para as 8 da noite. 

Jantamos num simpático restaurante a algumas quadras do hotel, ao ar livre numa pequena praça, onde o dono, já conhecido do Pete, veio na mesa nos recepcionar e ajudar nos pedidos. 

No dia seguinte, antes de seguirmos viagem, fomos visitar o antigo teatro romano de Orange. 

Nesse dia o almoço foi numa área para picnic ao lado da cooperativa de vinicultores de Laudun. A comida do picnic tinha sido providenciada por Pete e Felicity enquanto terminávamos nosso café da manhã ainda em Orange. Aqui mais um diferencial: nos dias de picnic, Pete sempre chamava um de nós para ir ao supermercado com ele para comprar o almoço. Ver tantas opções de queijos, patês, frios, pães, vinhos, etc. é muito interessante. E até aí, nenhuma grande novidade para quem já esteve na França. O legal é aprender o quê é o quê, o que comprar, quanto comprar, como pedir, etc. É uma nova experiência, e você se sente como um local, fazendo a coisa “direito". Pelo o que eu tinha lido sobre os outros tours, no caso deles esses picnics já estavam esperando por você em lugares pré determinados, com tudo pronto, o que acaba tornando a experiência não tão interativa. 

Depois do picnic fizemos uma degustação de vinho na cooperativa de Laudun, onde já garantimos o vinho para o próximo picnic. 

Esse segundo dia já foi um pouco mais longo e puxado, com algumas subidas e bastante calor. No final do dia, chegamos a Uzès onde ficamos instalados num hotel fora do centro. Depois de algumas cervejas na piscina, tomamos banho e fomos para o centro caminhando. 

O jantar foi num restaurante numa ruela do centro de Uzès, onde uma bela mesa montada no jardim sob as árvores nos aguardava. 

Todos esses jantares já estavam reservados especialmente para o grupo. Assim sempre éramos muito bem acolhidos pelos donos, suas famílias e funcionários. 

Nos menus, especiais para nós, sempre tinha um amusebouche (aperitivo), diferentes opções de entrada, de prato principal e de sobremesa. Sem esquecer dos queijos antes da sobremesa. E isso se repetiu todos os dias. 

Depois de uma volta pelo centro de Uzès, voltamos para o hotel.

O terceiro dia de pedalada passaria por Pont du Gard, o famoso aqueduto romano, onde faríamos outro picnic. Como o vinho já estava garantido, compramos a comida num mercado na saída de Uzès, e os pães, numa bolangerie durante uma parada para um café em Sanilhac. Chegamos em Pont du Gard no início da tarde e fizemos nosso picnic sob os arcos do aqueduto. 

Nosso dia terminou em Beaucaire onde ficamos hospedados num antigo convento no centro da cidade. O jantar foi no restaurante do próprio hotel, onde as toalhas das mesas tinham a mesma cor das flores das árvores do pátio central. 

Nosso quarto dia iniciou com uma parada em Fontvieille para o café, logo no início da manhã, onde fizemos a primeira comemoração do aniversário de Alan, com uma bela variedade de doces folhados. Na continuidade, seguimos até o vilarejo de Les Baux-de- Provence, notório por sua localização no topo de uma colina de pedras. 

Mais uma grande subida da viagem, mas que valeu a pena. Lá, visitamos o museu do castelo e o vilarejo, a almoçamos uma bela salada num pequeno restaurante logo na entrada da cidade. 

Logo após a descida de Les Baux, paramos na vinícola "Mas de la Dame" para mais uma degustação de vinho. Energias carregadas, seguimos para a segunda grande subida do dia, antes de chegar às ruínas da antiga cidade romana de Glanun, a poucos metros de St. Remy, nosso pouso daquela noite.  

St-Remy-de-Provence

Durante o jantar dessa noite, Bernard (dono da empresa do tour) mandou servir uma champagne para comemorarmos o aniversário de Alan. Comemoração que demos continuidade em um bar no centro de St. Remy depois do jantar. 

No dia seguinte seguimos rumo à Roussillon. No caminho passamos por Eygalieres, onde paramos para um café, e Taillades (próximo à Cavaillon) onde paramos para nosso último picnic. À tarde foi outro dia com bastante subida, quando passamos por Maubec, Oppede le Vieux com sua magnífica vista panorâmica, e pela famosa Menerbes, retratada nos livros de Peter Mayle. Mas pensando bem, para se ter belas vistas, quanto mais alto melhor. E o único jeito de chegar no alto, é subindo. Por outro lado, depois de toda subida vem uma descida, e elas são deliciosas. 


Menerbes
Depois de aproveitar um pouco a piscina do hotel em Roussillon, atravessamos a cidade onde notoriamente as construções são todas em tons de ocre devido a cor da terra da região, e fomos jantar num restaurante do outro lado da cidade, com uma bela vista do pôr do sol e das escarpas avermelhadas. Após o jantar ainda fomos tomar uns drinks do centro da cidade, no Bistrot de Roussillon, onde Pete conhecia o dono e fomos mais uma vez muito bem recebidos, apesar do bar já estar fechando. 

 
Lavandas

O último dia de pedalada foi bem intenso e um dos mais bonitos. Logo na saída de Roussillon paramos numa plantação de lavanda e numa de girassóis logo em seguida.

Ambas estavam em sua plenitude, uma vez que estávamos no começo do verão. Nesse trecho da estrada, alguns artistas tentando reproduzir as cores intensas dos girassóis. Depois de passarmos ao largo de Gordes - não visitamos a cidade, só a vimos de longe - e depois de atravessar uma colina, chegamos à Fontaine-de-Vaucluse, que é a maior nascente da França. A vila fica ao redor de corredeiras onde a água é de um verde impressionante. Ali paramos para visitar a gruta onde nasce o rio, tomar um café e visitar as lojinhas de souvenires. Próximo dali ficava L’Isle-sur-la-Sorgue onde paramos para almoçar num restaurante debruçado sobre o rio La Sorgue. De lá seguimos de volta a Avignon, nosso ponto de partida. Antes de irmos para o hotel, paramos no centro da cidade para visitar o Palais du Papes, residência dos papas no século XIV, e a ponte de Avignon, onde fizemos a tradicional foto do grupo.

Girassóis

A noite, jantar no hotel, despedidas, emoções. O astral da mesa era completamente diferente do primeiro dia, onde ninguém se conhecia direito ainda…e agora éramos os novos "melhores amigos de infância”. Na manhã seguinte pegamos nossos transfers para a estação de Avignon onde tomamos nossos trens. Fiquei mais alguns dias em Paris antes de voltar para o Brasil. 

Depois de uma semana pedalando pelas bucólicas vilas da Provença, enfrentar uma cidade grande como Paris é um choque. Desde então sempre recomendei a quem fizesse essa viagem, ficar mais tempo em Paris antes do tour de bike, e não depois.


*Roberto Peixoto, 49 anos, é arquiteto de Florianópolis
e desde 2009 vai todos os anos pedalar na Europa,
contabilizando 9 roteiros até 2015. 
Já fez esse roteiro outras 2 vezes - em 2013 e 2015.

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