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Dicas de Viagem

postado dia 28/04/2016

Viagens da Maria - Kiel

  1. Kiel, Alemanha,   5-9 setembro 2015

Você gosta de velejar, olhar navios de passageiros de grande porte ou neles viajar, ver estaleiros incríveis a construir iates para gente rica e acredita que se o sol brilha é verão?  Então venha para Kiel e se prepare, também, para enfrentar um ventinho que sempre te dá uma sensação térmica pelo menos uns 3 graus abaixo do que marca o termômetro.  Em tempo:  aqui está sendo construído o maior iate do mundo, por encomenda, sim,  de um biliardário russo.

Kiel é a cidade náutica, por excelência, historicamente importante pois foi um estaleiro de e base de apoio para submarinos durante a II Guerra Mundial.  Portanto, totalmente bombardeada pelos aliados.  Ainda assim, conseguiu manter intacta a marinha de veleiros que foi construída em 1936 para as Olimpíadas, aquelas presididas por Hitler em que Jesse Owen, um corredor americano negro, ganhou a medalha de ouro.  Em junho, é aqui que se realiza uma das mais importantes competições náuticas a vela.  Então é assim:  como eu não velejo, acho navios bonitos e me impressiono com seu tamanho mas não pretendo navegar e meu marido passa os dias na universidade ouvindo e discutindo os temas de seu congresso,  caminho o quanto meu joelho deixa, em qualquer direção, e vou descobrindo uma cidade simpática, espalhada, com gente bastante simpática, também.  Já descobri muitas praças, ruas comerciais, já almocei uma bratwurst no pão, comprado da senhora que tem uma carrocinha na esquina da primeira praça, já vi a igreja e a nova prefeitura, já fui ao correio mandar um cartão de aniversário, já encontrei uma feira de rua onde comprei framboesas e mirtilos que como com o café da manhã, vi várias estátuas bonitas e também já li bastante.

Hoje fui a uma lavanderia cumprir com minha obrigação de acompanhante de congressista e deparei-me com um cenário desolador.  1.  Não havia atendente algum.  2. As máquinas não tinham os esperados orifícios para colocar as moedas que fazem o milagre de conseguir que elas lavem.  E agora, Maria?  Encontrei  um painel cheio de botões e um lugar para inserir notas.  Como eu precisava de troco, inseri uma nota e, ôba, deu certo.  Ganhei um monte de moedas.  Então comecei a suar a mufa para descobrir o que fazer para que uma das máquinas lavasse minha roupa.  Estava eu concentrada neste afã quando se aproximou uma senhora, bem mais jovem do que eu, e começou a falar-me em alemão.  Consegui dizer a ela, tropeçando, que eu não falava sua  língua e perguntar se ela falava inglês.  Entre o meu parco alemão e o parco inglês dela e das mútuas desculpas por nossa deficiência também mútua, ela me ajudou a entender que as moedas deviam ser inseridas na fenda do painel, o botão com o número da máquina apertado ainda no painel e, alás, a máquina funcionaria.  Mas, antes, colocar o dedinho no botão azul para  que o sabão em pó (waschpulver) caísse no potinho e pudesse ser colocado na gavetinha da máquina.  Não contente com quase fazer tudo por mim, esta dama foi até onde estava sua cesta esperando a sua roupa que girava na secadora e voltou com um recipiente de amaciante e m’o ofereceu.  Cheirava bem e eu aceitei sorrindo.  Danke schön! Roupa limpa e seca em 1 hora e uma agradável surpresa nas relações pessoais de gente como a gente. 

 

Nosso hotel fica perto da Estação de trem, o que foi cômodo para chegar e será cômodo para sair.  Diferente dos arredores de estações de trem no Japão, esta aqui não é muito agradável apesar de, além do nosso (que é bem simples) haver muitos hotéis, alguns super chiques. De vez em quando, na chegada de um navio – ali do lado, logo ali – o espaço de calçadas e ruas se enche de turistas que atravessam na direção de um enorme shopping center que há do outro lado da rua.  Mas o chão é cheio de bitucas cigarros, algumas latas, muitos moradores de rua sentados sob as árvores.

O ambiente não é perigoso, no entanto.  Aliás, tudo me parece muito seguro.  Ontem fui à estação de trem para comprar nossas passagens para Copenhagen e eu era a 14 na fila.  Então sentei e fiquei observando.  A maioria das pessoas chamadas iam até o balcão deixando no banco ou ao lado dele, seus pacotes e suas sombrinhas.  E voltavam, pegavam e iam embora e ninguém parecia preocupado com algum desvirtuamento do direito de propriedade do/da cidadão/ã. 

Observando as 13 pessoas que foram atendidas antes de mim e seus acompanhantes – quando os tinham – fiquei me perguntando sobre como será o povo alemão daqui a 50 anos.  Além dos idosos de praxe – eu incluída –  de fenótipos caucasianos, como diriam nos EEUU, lá estavam uma família nitidamente de origem árabe (pai, mãe e filha de uns 9 anos), falando alemão. e dois jovens negros, falando alemão.   Na rua, uma diversidade grande, só menor do que a que vi nas grandes cidades da Inglaterra.  Turco é a segunda língua mais falada na Alemanha e os imigrantes legais ou não continuam chegando. (Alias, há dias o assunto da mídia e dos alemães com quem consigo falar é a tragédia dos migrantes cotidianos que estão sofrendo e morrendo na travessia. Vejo que nos blogs da internet brasileiros, espanhóis e americanos, também).  Minha pergunta se fundamenta no conhecido traço alemão do preconceito contra os não germânicos.  Conversando com amigos daqui,  nos disseram que já foi pior e que há um esforço educacional nas escolas para fazer uma diferença.  Acredito no esforço, mas não sei  sobre os efeitos.  Em todo o caso, vi hoje, no ônibus, onde uma outra família de cor de pele escura – não sei a origem – estava.  O homem sentou-se num banco de dois lugares.  A mulher ficou em pé com o carrinho do bebê no lugar especifico do ônibus para carrinhos e cadeiras de rodas.  Em dado momento do trajeto, o ônibus encheu de estudantes que, como eu, iam até a Universidade.  Mais gente do que acentos livres.  Ninguém sentou-se ao lado do homem negro.  Então tá.  Que continuem tentando.

Mas, como eu dizia acima, é verão.  Fim do verão, é verdade, mas verão.  E o sol até saiu hoje, apesar de muitas nuvens e chuviscos rápidos.  Mas o vento...sensação térmica de 13 graus C.  Quarta feira, dia 2/9, de manhã.  À tarde o congresso de meu marido tinha seu programa social:  um passeio de barco, saindo do porto aqui em frente ao hotel e, em quatro horas, ir até o canal de Kiel – que liga o Báltico ao Mar do Norte  - passar por suas comportas e andar um tanto até  uma certa ponte, construída no século 18 e provavelmente reconstruída algumas vezes depois.  Por este canal passam mais barcos do que pelo do Panamá, a maior parte em trânsito pelos países escandinavos, Rússia e vizinhos, mas, ainda assim, um grande movimento.  Nosso barco era pequeno, aqueles especiais para passeios curtos, muito confortável, com uma enorme área fechada, mesas, cadeiras e, às 4 da tarde, tortas magnificas e café.  Minha dieta páleo não resistiu..., confesso.  Mas, para além desta derrapada pantagruélica, o passeio foi lindo pois o sol se mostrou inteiro, o vento frio e forte ficou delicioso no convés, a companhia era boa e as margens mostraram características interessantes.  Já falei do cais de veleiros de 1936 e da ponte do século 18.  Não falei ainda das casas de veraneio e de alguns pequenos hotéis, do acampamento de trailers, da praia de  Laboe    onde está o U Boat (submarino alemão), da II Guerra que eu quero visitar (está fora da água).  A praia de Laboe é famosa por aqui, a mais próxima de Kiel, e tem, na areia, algo que vi também em praças onde há cafés:  umas espécies de grandes conchas de vime/palha, que protegem do vento e, imagino, do sol.  Não há guarda-sóis na praia.  Só estas conchas dentro das quais é possível sentar-se em almofadas coloridas, na altura de cadeiras...muito “Morte em Veneza”, para quem viu o filme.  Para quem não viu, muito praia europeia do início do século XX.  Como o barco passou ao longe não pude ver o estilo dos trajes de banho mas suponho que isto variou um pouco desde aqueles tempos.  Há também, numa parte do percurso, enormes casas em estilo dinamarquês (foi-me dito), construídas nos séculos 18 e 19, por famosos arquitetos daquela nacionalidade, quando esta região era parte da Dinamarca.  São muito grandes, parecem casas senhoriais, e olham para o canal lá de cima das colinas, por entre uma vegetação alta mas não muito densa.  As janelas são o que mais chamam a atenção:  além de regularmente distribuídas na fachada da casa, são estreitas e longas, com pelo menos duas folhas e cada uma com pelo menos uma repartição horizontal no vidro.  A porta de entrada fica no centro, numa parte que se projeta para a frente, como se fosse uma bay window, mas retangular, e que alcança toda a altura da casa que pode ter 3  andares de pé direito enorme. 

Falando em arquitetura:  as cidades desta região foram totalmente destruídas, já disse.  No entanto, olhando para as construções da cidade, mais aqui em Kiel do que em Essen,  onde estivemos antes, por 2 dias, vê-se, claramente, o que é novo e o que é velho.  E o que é velho dá a impressão de ser muito velho, do inicio do século XX ou ainda mais.  Só que não é.  Houve um esforço, bem sucedido, de devolver ao lugar um pouco das características que tinha antes da destruição.  Ao reconstruí-la, arquitetos parecem ter caprichado na reprodução dos estilos que lhes davam uma identidade.  Há uma constante ilusão de tempo quando se caminha por algumas das ruas do centro, uma espécie de ilusão histórica que não chega a agredir mas espanta.  Não perguntei a ninguém, mas parece que as casas dinamarquesas não chegaram a sofrer destruição e são originais. 

Andar pelas ruas aqui é moleza.  Especialmente para ciclistas.  As ciclovias são prolongamentos das calçada e os ciclistas se regem pelos mesmos sinais de trânsito dos pedestres.  E não ouse andar pela ciclovia ali ao lado:  o pedalante te xinga e te manda voltar para o teu lugar.  Portanto, como pedestre, é só andar na tua linha e estás seguro.  Também o ciclista que não tem de disputar espaço com carros e caminhões e, com sorte, nem precisa bater boca com pedestre.

Mas agora já é quinta feira e meus planos de visitar o U-boat hoje foram postergados.  O congresso de meu marido termina amanhã ao ½ dia, o que nos possibilita ir juntos, de ferry-boat, até Laboe e ver o submarino.    Depois, é re-arrumar as malas e pegar o trem no sábado, às 6 da matina, rumo a Copenhagen.

Abaixo, uma foto da passagem pela velha ponte nova, atrás  de um navio de passageiros que esteve conosco na comporta de entrada do canal mas saiu na nossa frente.   E se você não quiser mais receber estes relatos, é só responder dizendo:  descadastre-me.  Não farei perguntas nem ficarei chateada.  Prometo.  O sol acaba de sair agora,  5 da tarde, mas me deu preguiça de ir para a rua.  Até.

 

 

 

 

 

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